Nascer prematuro: desafios

A nossa espécie está programada para que os nossos fetos permaneçam nove meses dentro do útero materno. De todos os mamíferos somos os mais vulneráveis e dependentes ao nascimento. Esta vulnerabilidade aumenta quando se nasce prematuramente.

Define-se prematuridade como todo o bebé que nasce antes das 37 semanas completas de idade gestacional, sendo a gravidez normal de 40 semanas a contar do primeiro dia da última menstruação.

Baseado na idade gestacional, o nascimento prematuro pode ainda divide-se  em:

- Prematuridade extrema: < 28 semanas

- Muito prematuro: 28 – < 32 semans;

- Prematuridade moderada 32 – < 37 semanas

Cada semana dentro do útero materno pode fazer a diferença para a melhor ou pior na adaptação à vida extrauterina e na maior ou menor necessidade de apoio médico, sendo a idade gestacional e o peso ao nascer dos principais factores  a condicionar a adaptação e sobrevivência. A maturidade dos sistemas corporais está dependente do tempo passado no útero materno.

Alguns bebés podem parecer maduros e perfeitamente formados mas o seu cérebro, pulmões, intestinos, fígado, rins ou o sistema sensorial podem ter um longo caminho a percorrer. Quanto mais prematuro e mais pequeno maior a imaturidade e maior o esforço de sobrevivência, os custos finaceiros e os riscos.

Em regra podem apresentar:

alterações da regulação da temperatura corporal alterações metabólicas
síndroma de dificuldade respiratória por imaturidade pulmonar anemia
apneia de prematuridade risco elevado de infecção
hipotensão doença pulmonar crónica: displasia broncopulmonar
hiperbilirrubinémia enterocolite necrosante
persistência de canal arterial retinopatia da prematuridade
alterações hidro-electroliticas alterações neurológicas: hemorragia intraventricular

Estas alterações requerem o recurso ao internamento em unidades de cuidados intensivos – UCIN – com o apoio de ventiladores que os ajudam a respirar, medicamentos que mantêm a tensão arterial normal, os níveis de açúcar no sangue, o ritmo cardíaco normal, ou a função renal adequada e vigilância constante. Os bebés são colocados em incubadoras que mantêm as condições adequadas de temperatura e humidade, ajudando também a proteger de infecções.

Todos os órgãos, em especial o cérebro, têm necessidades muito próprias para crescer e se desenvolver. Em regra só o útero materno as pode suprir.

As implicações do nascimento prematuro são particularmente relevantes para o sistema cerebral, respiratório, digestivo e sensorial.

O cérebro

O cérebro é um dos sistemas corporais mais complexos. Para um bebé prematuro de 24 semanas o seu cérebro irá crescer e diferenciar-se, até atingir a idade chamada de termo, de uma forma tão rápida e intensa como nunca acontecerá em qualquer outro período da vida.

O crescimento e desenvolvimento cerebral faz-se de uma forma programada geneticamente. Isto significa que em todos nós este processo é mais ou menos igual. No entanto o cérebro recebe informação do exterior, importante para a aprendizagem e para o crescimento e desenvolvimento das conexões neuronais, imprimindo um cunho muito próprio e que depende das experiências externas que cada um de nós vive. Esta informação externa chega ao cérebro através dos órgãos dos sentidos.

Dentro do útero materno os cinco sentidos fornecem  informação de um ambiente calmo, com pouca luz e ruído. É neste ambiente que um bebé passa os nove meses do período gestacional normal. O nascimento prematuro quebra com esta regra. Para muitos prematuros pode ser uma adaptação sem consequências, mas para outros, sobretudo os que nascem antes das 35 semanas e necessitam de um internamento numa unidade hospitalar, pode constituir um grande desafio. Na UCIN o cérebro imaturo do bebé prematuro recebe informação e é esculpido por uma quantidade de estímulos para os quais não está preparado, nem em quantidade nem em qualidade. Procurar proporcionar as experiências mais adequadas deve ser um objectivo dos profissionais de saúde.

Sistema respiratório

Dentro do útero materno a função para a qual o sistema respiratório é criado, não está activa. As trocas gasosas são efectuadas pela placenta. O bebé recebe oxigénio e entrega à placenta o dióxido de carbono resultante do seu metabolismo. O nascimento prematuro vem acelerar processos fisiológicos de adaptação, crescimento e diferenciação pulmonares. O pulmão do prematuro é obrigado a substituir a placenta e muitas vezes o bebé não é capaz de o fazer de forma eficaz necessitando de apoio ventilatório com aparelhos chamados de ventiladores que o ajudam a respirar. São algumas as razões para esta incapacidade:

- Inadequada produção de surfactante pulmonar;

- Incompleta formação das estruturas pulmonares, sobretudo dos alvéolos;

- Incapacidade funcional de levar ar para dentro do pulmão de forma eficaz, por falta de força muscular.

A adaptação a esta nova função é gradual, exige que os músculos respiratórios do bebé se fortaleçam, que o centro respiratório no cérebro mantenha a função respiratória de forma regular e eficaz, e que as estruturas pulmonares, sobretudo os alvéolos, se desenvolvam o suficiente.

Sistema digestivo

Dentro do útero materno a placenta encarrega-se de fornecer ao feto todos os nutrientes necessários ao seu crescimento saudável. Com o nascimento inicia-se a alimentação com leite, preferencialmente materno. Para os mais pequenos a alimentação oral pode não ser iniciada logo no primeiro dia. Nestes casos a nutrição do bebé é mantida através de soros ricos em proteínas, gorduras e vitaminas, suprindo todas as sua necessidades – a alimentação parentérica. A pouco e pouco o leite materno é dado ao bebé e vai substituindo a alimentação parentérica.

A capacidade do bebé digerir o leite difere de bebé para bebé, não esquecendo que o seu estômago e intestinos só estavam capacitados para digerir líquido amniótico, e que estes podem levar algum tempo para que se acostumarem ao leite materno. Por outro lado para grande parte dos prematuros só a partir das 32 semanas é que os reflexos de sucção e deglutição se desenvolvem o suficiente para se alimentarem directamente na boca sem que se engasgue. Em regra, antes das 32 semanas, o bebé é alimentado através de uma sonda ou tubo introduzida até ao estômago. Esta actividade requer a maturação da coordenação entre actividades tão importantes como o respirar, sugar e engolir e que estão dependentes, em primeiro plano, da maturação cerebral.

Sistema sensorial: visão e audição

A visão é o último dos sistemas sensoriais a desenvolver-se. A estrutura ocular está presente, a formação das conexões nervosas e a maturação do córtex visual prolonga-se ao longo da infância até à adolescência. Até às 34 semanas o reflexo pupilar está ausente o que permite que toda a luz ambiente chegue à retina sem qualquer filtro. Assim é recomendado que até esta idade seja controlada a quantidade de luz que incide sobre o bebé protegendo as suas incubadoras, protegendo os seus olhos de luzes directas e, de forma individual, quando está fora da incubadora no colo dos pais.

A audição está presente no bebé prematuro. Sons muito intensos, em qualidade e quantidade, podem perturbar o bebé e gerar desconforto. É importante proteger o prematuro de sons desagradáveis e perfeitamente evitáveis. Não se conhece bem o impacto do ruído das UCIN no desenvolvimento do bebé, mas sabe-se que a incidência de alterações de processamento de sons, diminuição da acuidade auditiva e dificuldades no processamento da linguagem são altas nas crianças nascidas prematuramente. Por outro lado ambientes ruidosos aumentam os sinais de desconforto e stress como o ritmo cardíaco e respiratório e a tensão arterial, aumentando assim o consumo de energia e oxigénio. Ambientes ruidosos também estão associados a aumento dos níveis de stress nos profissionais e nos pais.

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4 pensamentos em “Nascer prematuro: desafios

  1. Parabéns enfª Elsa, gostei bastante; dar a conhecer a luta diária destes herois que são os permaturos!!
    Bjnhos do Francisco para todos!

  2. Olá Enfermeira Elsa! Estive na unidade com os meus dois filhos de 28 e 32 semanas! Um em 2008 e outros em 2010! Com o Eduardo que nasceu de 28 semanas, estivemos cerca de dois meses e meio! Lembro como hoje o vosso profissionaismo e o carinho com que tratam os nossos meninos! Consigo aprendi a fazer as masagens que ainda hoje eles gostam e me pedem! Sou-vos gratas eternamente pois em a vossa ajuda os meus filhos não seriam as lindas crianças que são hoje! Gostei muito do seu site! Vou continuar a segui-lo

  3. Olá enfermeira Elsa!
    Quero parabeniza-lá pelo excelente trabalho, adorei a matéria publicada, realmente os prematuros são especiais e vejo que são como outros bebês que nascem de 9 meses, só precisam ter um cuidado a mais.
    Beijos.

  4. Olá , eu fui prematuro de 8 meses, e acho que a medicina , das parteiras á hoje, se aprimorou bastante, mas tem suas coisas negativas, precisamos honrar os médicos e á Deus e ver o Senhor nelas

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