O amor dos pais e o desenvolvimento cerebral

O colo precoce

O internamento na UCIN só é efectuado em última instância e em regra por razões clínicas. Na maior parte das vezes os cuidados médicos e de enfermagem vêm ajudar o bebé a adaptar-se à vida extrauterina durante um período importante de maturação dos seus órgão e sistemas corporais. Contudo a recuperação, o crescimento e o desenvolvimento destes bebés é muito mais complexo e envolve muito mais que a tecnologia e os conhecimentos médicos de apoio às funções vitais. Pesquisas mostram pela primeira vez que o tipo de relação emocional vivida pelo bebé numa fase precoce da sua vida influencia o desenvolvimento cerebral. Um estudo recente (Ludy et al., 2012*) verificou alterações muito significativas numa região anatómica muito crítica do cérebro da criança e que parecem relacionar-se com a qualidade do afecto maternal – o hipocampo. O hipocampo é uma estrutura cerebral importante para a aprendizagem, a memória e as respostas ao stress e este estudo assinala um aumento significativo do volume do hipocampo em crianças em idade escolar e com um suporte emocional saudável. Crianças queridas, acarinhadas e amadas pelas mães apresentam um hipocampo maior que crianças que não o foram.

Este estudo refere ainda que os efeitos do afecto parecem ser semelhantes quer seja a mãe quer por outro prestador de cuidados a estabelecer essa relação afectuosa de qualidade – pai, avós, pais adoptivos ou outros.

Sabe-se que o internamento e os tratamentos médicos condicionam grandemente a ligação entre o bebé e os pais. A incubadora, os fios e a condição clínica constituem barreiras que conduzem a um distanciamento afectivo e a necessidade de criar laços o mais precocemente na vida destes bebés é assim um imperativo.

A presença assídua na UCIN de alguém que proporcione este tipo de cuidados e que emocionalmente preencha as necessidades do bebé é fundamental. O envolvimento precoce dos pais nos cuidados deve constituir um objectivo primordial dos profissionais. Actividades que envolvem o afecto têm que ser incrementadas e realizadas diariamente e com frequência pelos pais – o colo, o abraçar, mesmo na incubadora, o pousar das mãos, o canguru, os cuidados à pele, as mudanças da fralda, a amamentação, a alimentação preferencialmente ao colo, o cantar e o sussurrar.

O amor, o afecto e o toque gentil são meio caminho para o restabelecimento mais rápido e para a alta.

*Ludy JL, Barch DM, Belden A, Gaffrey MS, Tillman T, Babb C, Nishino T, Suzuki H, Botteron KN. Maternal support in early childhood predicts larger hippocampal volumes at school age. Proceeding of the National Academy of Sciences Early Edition, Jan. 30, 2012.

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Pequenas coisa para gente pequena

Pequenas coisas para gente pequena

Bebé vestido, envolvido com a sua mantinha e com os seus brinquedos

 O nascimento prematuro e o internamento representam uma realidade desconhecida para os pais e em nada será aquilo que eles sonharam. Quando um bebé nasce prematuramente e é internado numa UCIN os pais confrontam-se com uma série de factos novos como o tamanho e a aparência do bebé, a incerteza da sua evolução clínica e as dificuldades em assumirem os seus papéis enquanto pais no hospital. Os elementos que constituem as equipas multidisciplinares estão preparados para ajudar os pais a ultrapassar estas dificuldades e a encontrarem o seu lugar dentro da equipa e nos cuidados ao seu filho. A família por regra cumpre papéis muito precisos de cuidar, alimentar, vestir e amar. Na UCIN estes papéis podem e devem ser replicados, embora com algumas particularidades relacionadas com as condições muito próprias das unidades e a situação que levou o bebé ao internamento. Os pais são integrados na equipa e realizam gradualmente pequenas tarefas como confortar, dar carinho e amor, vestir ou alimentar. A pouco e pouco eles podem manifestar interesse em aligeirar o ambiente que envolve o seu filho, em trazer roupinhas só para ele, em comprar o primeiro brinquedo.

Individualizar e personalizar o espaço do bebé na UCIN

Pequenas coisas podem tornar mais familiar a unidade do bebé e diminuir o aspecto clínico e impessoal do ambiente extremamente tecnológico da UCIN. É necessário que os pais se informem da política da unidade, se poderão trazer algumas roupinhas, um brinquedo, a chupeta ou uma mantinha.

É difícil encontrar roupas pequeninas para bebés com menos de 1,200 Kg, mas com alguma perícia tricotar meias e gorros ou costurar pequenas camisinhas pode fazer a diferença e iniciar a construção do primeiro guarda-roupa. Quando o bebé ainda tem soros ou catéteres é importante que a roupa seja fácil de vestir e que permita manter os sistemas de soros fechados quando é necessário vestir ou despir, com aberturas nos ombros através de molas ou fitas auto-adesivas.

Trazer uma manta pode ser benéfico para quando o bebé vem ao colo, para pesar enroladinho, ou para fazer um pequeno ninho ou cobrir a partes da incubadora de forma colorida e que tornará a incubadora mais alegre e individualizará a caminha. Em bebés com menos de 1,000 Kg as mantas à venda podem ser grandes, mas se cortadas com 50X50 ou similar, podem ser muito úteis para tapar o bebé e aconchega-lo na incubadora. Uma mantinha também pode ser útil para formar uma tenda à volta da cabeça do bebé de forma a protegê-lo da luz quando está fora da incubadora ou então sujeito a um foco luminoso para execução de algum procedimento.

Alguns pais costuram as cobertas para as incubadoras com tecidos coloridos e alegres que permitem proteger o bebé da luz excessiva e filtrar o som protegendo o sono e o repouso e dando privacidade. É importante que a coberta se adapte a todo o tipo de incubadoras existentes na unidade. Dependendo da política de Cuidados de Apoio ao Desenvolvimento referente à proteção da luz, os bebés muito prematuros deverão ser protegidos da luz durante todo o tempo, mantendo um ambiente semiescuro e permitindo a vigilância. Em prematuros maiores, ou à medida que o bebé cresce e matura, esta proteção vai sendo menor e a necessidade de permitir a entrada de luz também maior, até deixar de existir. Nestes casos a coberta poderá ser cortada ou dobrada consoante a necessidade. Bebés de termo mas doentes também podem beneficiar desta proteção diminuindo estímulos externos e beneficiando o repouso.

Algumas unidades permitem que se coloque dentro da incubadora ou fora, na unidade do bebé, um boneco ou brinquedo facilmente lavável, fotografias dos irmão ou pais, ou objectos religiosos. Os brinquedos não são importantes para o bebé mas pode permitir aligeirar e personalizar o ambiente.

Independentemente destes pequenos mimos é importante referir que os bebés prematuros  são muito sensíveis a todos os estímulos ambientais. Objectos coloridos ou que emitem ruído devem ser integrados dentro do espaço do bebé com cuidado para não estimular demais o bebé ou perturbá-lo. Bebé prematuros necessitam sobretudo de tranquilidade, de dormir e da voz e cara dos pais.

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Recolher memórias do internamento na UCIN

Todos os pais de bebés que nascem prematuramente têm a oportunidade de conhecer o seu bebé de uma forma única. Estão numa posição privilegiada de testemunhar o crescimento e desenvolvimento de um feto, como se estivesse dentro do útero materno. Existem momentos que jamais esquecerão, e esses momentos podem ser guardados para sempre através de diversas formas.

Recolher memórias permite relembrar pequenos detalhes que com o tempo se podem apagar e permite que mais tarde possam contar ao bebé, que nasceu prematuro, o seu percurso de vitória na UCIN.

Como construir memórias?

Criar um diário

Um diário pode não constituir um relato assíduo do que vai acontecendo ao bebé. Por vezes falta alguma energia para o manter mas pode ser um relato frequente ou oportuno de conquistas e de reveses nesta caminhada conjunta. Existem momentos de espera na UCIN que os pais podem aproveitar para eternizar as suas vivências tirando fotografias ou escrevendo. Escrever sobre: o peso e o comprimento; as reações a atividades novas como o primeiro banho, a primeira alimentação, como reagiu ao sabor do leite da mãe, ou quando foi colocado à mama. Como reagiu ao primeiro colo, ou ao canguru, as primeiras manifestações de socialização, os seus padrões de sono, se gosta da chupeta, como gosta de ser deitado ou as mudanças de humor.

Os pais podem também achar útil manter um relato de alguns acontecimentos médicos importantes e as reações do bebé. Acontecimentos como a retirada do apoio ventilatório, a suspensão do oxigénio, o resultado dos exames oftalmológico e audiológico bem como a tratamentos importantes ou alguma cirurgia, podem constituir momentos marcantes. À medida que o bebé fica mais forte a passagem pelos diversos níveis de cuidados (intensivos, intermédios e pré-alta) e a alta também podem ser lembrados. Este diário pode conter referências a pessoas significativas, podem ser guardadas mensagens ou cartas de amigos ou familiares e reações ao nascimento e à prematuridade.

Fotografias

Muitos momentos são únicos. A primeira vez que os pais vêm o bebé é um deles e muitas vezes só algum tempo depois do nascimento é que conseguem fazê-lo. Algumas unidades têm a preocupação de tirar uma fotografia e levar notícias aos pais que não podem estar presentes na UCIN. A primeira vez que o bebé vai ao colo ou faz canguru é outro momento, com frequência breve mas muito importante e que deve ser celebrado. Acontece muitas vezes que o bebé esteve tão instável e doente que ir ao colo é um sinal positivo e de esperança para os pais. Por outro lado é o primeiro contacto estreito entre eles depois do nascimento prematuro.

Outros exemplos que podem conter grande emoção e merecer serem guardados são quando os irmãos gémeos são deitados juntos – partilha de leito, o primeiro banho de banheira, a primeira mamada, quando a família se junta ou a visita dos irmãos.

São assim muitos os exemplos de que a máquina fotográfica deve ser um adereço indispensável quando os pais estão com o seu filho. As surpresas podem surgir sem mais nem menos, e o que hoje parecia impossível amanhã pode ser concretizado e merecedor de ser recordado.

Detalhes pessoais

Independentemente do tamanho do bebé, os pais acharão sempre que ele é muito pequenino, e guardar esse grande detalhe servirá para que se surpreendam com o seu crescimento. Os pais podem recolher a impressão plantar ou palmar do bebé e repetir mensalmente. Esta tarefa às vezes é difícil, sobretudo na recolha das impressões das mãos pois elas estão fechadas na maior parte do tempo. Podem fazê-lo através do uso de tintas para pintar a planta dos pés ou a palma das mãos e imprimir numa cartolina, ou então usando uma caneta de feltro rodeando as formas da mão ou pé (falem com o pessoal do serviço para lhe indicarem os materiais mais adequados e vos ajudar); tirar fotografias do seu corpo ao lado de algo que os lembre o seu tamanho real ( por exemplo colocando as mãos ou dedos das mãos dos pais junto do seu corpo, ou das suas mãos ou pés), fotografias com roupinhas especiais ou de uma altura em que o bebé está particularmente bonito. Fotografias de pequenos detalhes como as orelhas ainda sem cartilagem, dos pezinhos, das mãozinhas, dos lábios, do nariz ou dos olhos também podem ser interessantes.

Outros objetos pessoais

Guarde a primeira roupinha, ou outras roupinhas especiais; o cobertor que foi especialmente cortado para o envolver quando era muito pequenino; o seu primeiro brinquedo e companheiro; uma fralda de prematuro; a primeira chupeta; a pulseira de identificação ou o cartão de identificação da incubadora; os registos ecográficos in útero;

Como guardar as memórias

Uma caixa de cartão forrada e decorada pode guardar as memórias recolhidas.

Um quadro com a evolução das impressões palmares ou plantares.

Quadros/caixa para expor pequenos objetos pessoais ou roupinhas.

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